11/03/2013

Eco Pedal Talhado 2013: os Rapaduras foram.


RAPADURA NO TALHADO

Agradecer é preciso, façamos sem hesitação
Pedalamos no Talhado, com vigor e emoção
Subimos muitas ladeiras, descemos outro montão
Tomamos banho de chuva e sol forte de rojão

Chegamos logo no sábado pra molhar o peritônio
Lá fomos recebidos pelo ilustre do Petrônio
Pense num cabra bacana, igual a ele não há
Mas também não fica atrás o companheiro Josemar

Hospedados nós ficamos na Pousada Alvorada
Tudo muito asseado, simples e organizada
Quem nos recebeu sorrindo, sempre com eterno garbo
Foi a querida e amada, salve Dona Ducarmo

O pedal foi cansativo, mas também compensador
No caminho a seca intensa foi mostrando seu furor
Mas a paisagem bela, daquele sertão bravio
Fez o ciclista forte, vencer todo o desafio

Voltamos aos nossos lares com certeza bem madura
No próximo Pedal Talhado vai ter muita Rapadura
Pois aquilo que é bom deve ser prestigiado
Quem perdeu eu sinto muito e quem foi muito obrigado

1º DIA: aclimatação no Gargalheiras e acolhida em Santa Luzia

Acho que todo nordestino tem um pouco de poeta dentro de si. No meu caso tenho certeza que a minha veia poética tá mais entupida de que bueiro de esgoto do Alecrim após algumas horas de chuva em Natal. Assim sendo peço desculpas aos poetas juramentados, mas aprendi desde cedo e tenho tentado passar  pra minhas crias que emoção boa é aquela dividida, esparramada pelo chão feito capim em beira de rio.
Saímos de Natal (Serginho, Suzy, Laura, Naldo (Ridículo), Adriana, Nininha, Dudu, Nenen, Claudia Celi e eu) às 07h45. Uma paradinha no Posto Emaús e identifiquei o carro de Eduardo Campos, indicativo de que o homem desistiu de ser um Juarez. Deixei até um recado pendurado no vidro dianteiro, mas acho que o vento cuidou de jogar fora, pois até agora ele não me retornou pra replicar com um desaforo.
A primeira parada foi Santa Cruz para que Naldo fizesse uma boquinha e ainda colocasse a culpa em Nenen. Depois disso somente paramos em Acari e antes da entrada do Gargalheiras desci do carro pra esperar Claudia Celi que tinha ido ao banco, Nesse momento senti na pele o furor do sol do Seridó. Parecia que tinha um enorme secador de cabelos, na potência máxima, apontado pra minha venta. Suficiente dizer que eu tinha acabado de comprar um óculos importado (da China) e a armação do bicho derreteu  feito vela diante da chama.
Tomamos então o rumo do Gargalheiras e já na chegada percebemos o baixo nível da água. Na pousada buscamos o restaurante e matamos a saudade do filé de tilápia do lugar. Encontramos vários motociclistas participando de encontro na região e um deles, João Maia, veio até nossa mesa e nos relatou as belezas das viagens que realizam. Deu a dica de visitarmos Coroico. Anotei na agenda para pesquisar depois.
Nossa chegada em Santa Luzia foi por volta das 14h00min e tratamos logo da hospedagem, pois afinal de contas quem vive descoberto é sem teto, passarinho e cabra grande com lençol pequeno (nessa ordem).
Na Pousada Alvorada fomos novamente bem recebidos por Dona Ducarmo com seu sorriso de menina. No local já estavam Uilamy, Alan, Noronha e Shirley). De Bananeiras já estavam presentes os representantes do Banana Bike (Fernando Amaral, Adriana, Vanderleia, Neto e sua esposa). Tratamos então de buscar o rumo da praça com a finalidade única, exclusiva e singular de tomar um sorvete de cevada, recomendado pela Organização Mundial da Saúde como único lenimento capaz de aplacar o calor do sertão da Paraíba. Enquanto tomávamos alguns sorvetes chegou uma ligação de Raira e Emanoel Leite informando que já estavam em Parelhas e logo mais estariam se incorporando ao grupo juntamente com Fátima Arcanjo, Douglas, Hiram, Heráclio e Neto Mola, este tendo aproveitado para informar que chovia granizo na terra do Boqueirão.
Ficamos aguardando outros ciclistas e vendo o movimento da rua e resenhando sobre a viagem. Soubemos inclusive que Uilamy foi de extrema agilidade em localizar a pousada, bastando pedir informação a uma garota e ela foi deixá-lo na porta do lugar. 
Enquanto as garrafas de sorvete eram consumidas o grupo foi literalmente tomando corpo com a chegada de Laércio, Fabiano, Magno, Ediane, Claudiene, Alessandro e Alan (versão mais encorpada).
Enquanto permanecemos na "sorveteria" caiu uma chuva torrencial, o que foi um bom presságio para o pedal do dia seguinte. Nesse meio tempo tivemos a ausência de Kung Noronha, cujo passado registra uma simpatia com o budismo e tendo se deparado com as "montanhas" do Talhado, não resistiu e resolveu encarnar o seu buda interior, transformando-se no "Balaio de Lama", que vem a ser uma cópia pirata do líder budista lá do Agreste do Tibet.
A noite fomos jantar e fiquei deveras emocionado quando Laércio e Fabiano chegaram contando que nas proximidades da pousada encontraram um grupo de jovens treinando Jiu-Jitsu. Foram chegando de mansinho, apresentaram-se e descobriram que o mestre do grupo estava fora da cidade, passando então a ministrar algumas técnicas aos meninos. Desnecessário dizer que maior do que a alegria dos garotos foi o nosso orgulho por esse ato aparentemente tão pequeno, mas com efeitos grandiosos. Parabéns pela atitude!
Enquanto os nossos lutadores suavam a camisa, outra parte do grupo (omitirei os nomes para não ser injusto e para evitar possíveis ações reparatórias) enfrentava uma batalha épica e tentava sem nenhum sucesso dizimar todos os pastéis disponíveis no comércio da cidade. O interessante é que não estou tratando daqueles minúsculos pastéis servidos em aniversário de 15 anos de filha de crente, mas uns pastéis substanciosos, cujo recheio possui mais ou menos 1 Kg de carne moída, uma banda de um queijo de coalho, duas latas de azeitona e um tubo de mortadela Confiança light. Pra resumir: o pastel era tão grande que quase não cabia na fotografia!
Chegou a hora de dormir para acordar cedo e enfrentar o Talhado. De longe ouvia-se o batidão de som na praça e durante a madrugada sonhei com a campainha tocando várias vezes. Não bastasse isso tive um pesadelo no qual um cara tentava entrar na pousada e somente o fez mediante escalada, ao passo que outro dormiu em cima de uma carroça puxada por um jumento chamado "Rodrigo", tal e qual o de Nezinho do Bem Amado.
Acordei cedo e qual não foi minha surpresa ao encontrar estacionado na porta da pousada uma carroça modelo e ano 2013, tendo à frente um jumento. Passei pertinho dele e só pra espantar a dúvida falei baixinho: "Rodrigo". Pois não é que o danado olhou pra mim e sorriu.

2º DIA: Subindo e descendo o Talhado.

No local da concentração os ciclistas começavam a chegar de vários lugares (Natal, Bananeiras, Solânea, Juripiranga, Campina Grande, João Pessoa, Jaçanã, Pau dos Ferros, Patos, Glasgow, San Petersburgo, Guarabira e outras). Hora de reencontrar os colegas e conhecer novas pessoas. De pronto encontramos o ônibus (corujão) que saiu de Natal por volta da meia noite e trouxe várias autarquias, dentre as quais destacamos: Bob, Régua Lucas, Binho, Júnior Cobra (agora conhecido por Júnior Urso, pois é chegado a um mel) e Ivo PVC, este devidamente acompanhado de sua motocicleta voadora e de sua câmara fotográfica.
O café da manhã foi bastante satisfatório e atendeu às necessidades dos ciclistas. Olhei de soslaio e vi que teve gente enchendo os bolsos da camisa com pão e banana. É melhor prevenir do que remediar.
Depois de uma sessão de alongamentos o grupo de mais de duzentas bicicletas saiu furando as ruas da cidade. A mistura de cores das roupas dos ciclistas, a diversidade de bicicletas e o barulho dos pneus ganhando as ruas da cidade foi uma cena ímpar. Somente quem está naquele meio sabe a emoção que vem à tona naquele instante.
Deixamos o núcleo urbano e iniciamos a trilha propriamente dita. Os "aromas" das pocilgas nos arredores da cidade indicam que estamos na zona rural. De imediato chamou a atenção para a sequidão do lugar. Contei nos dedos os poucos animais que vi e, diga-se de passagem, todos abrigados em alguma sombra.
Nos primeiros cinco quilômetros ouvimos próximo ao nosso grupo um grito de guerra. Não demorou e novamente o grito era entoado e aos poucos foi ficando mais forte. De repente chegou a galera de Juripiranga (Lucas, Hellen, Eraldo e outros) chamando no gogó: JURIBIKE DOIDÔÔÔÔÔÔÔÔ!!!!! Esse é o espírito do pedal.
Chegamos então ao primeiro desafio: o início da subida da serra. Diferentemente do ano passado o trecho encontra-se parcialmente calçado, mas nem assim foi possível subir sem descer da bicicleta. No meu caso subi na primeira marcha e de vez em quando o sorvete de cevada pedia licença pra sair, mas não deixei de jeito nenhum. Tal e qual o ano passado encontramos no alto da serra o nosso prêmio - um ponto de apoio no alpendre de uma casa, com direito a água gelada e uma paisagem linda da região.
Juntamos os cacos de Rapaduras que estavam no local e seguimos nosso rumo. Quem achava que a subida tinha terminado estava enganado. Continuamos ganhando altitude e o comentário geral é que logo encontraríamos Jesus, pois daquela altura somente o céu. Não demorou e após uma curva encontramos um velhinho com o chassi todo empenado e precisando rapidamente de cambagem e alinhamento. O homem muito simpático insistia em chamar os ciclistas para conhecer a casa dele. Foi então que ouvi alguém dizer: "pronto, agora tá mais pertinho do céu, pois São Pedro já está nos esperando e chamando pra entrar".
Atingimos os 680 metros e nesse ponto ouvi pelo rádio Serginho anunciar que tinha encontrado uma descida. Tinha um cabra perto de mim que ouviu a mensagem e quase mijou nas bermuda de tamanha emoção.
Chegamos então ao ponto de apoio que ofereceu aos participantes escolher seguir por um caminho mais longo ou mais curto. Nesse ponto a alegria foi tão grande que fotografei o exato momento em que um ciclista fez suas orações direcionado à Meca. Grande parte resolveu seguir pelo percurso maior. Claudia Celi e eu resolvemos voltar pelo mais curto, pois tínhamos em mente entrar na Fazenda de Miltinho e arriscar repetir o menu do ano passado (jaca com buchada). Pedalamos uns 5 Km praticamente sozinhos, sem nenhum problema pois o trecho estava todo muito bem sinalizado e sempre passava algum motociclista do apoio. Chegamos em Miltinho e tomamos uma refrescante chuveirada. Esse ano o cardápio estava melhor ainda: churrasco, feijoada, cerveja gelada e cachaça Matuta. Pense num povo receptivo. Depois daquela parada eu estava em condições de fazer o trajeto de volta somente pra desfazer os rastros que deixei. Obrigado pela acolhida.
Mais 7 Km e alcançamos a zona urbana. Fomos até a pousada, arrumamos nossas coisas e seguimos até o local do almoço (Yayu Clube) para confraternizar com os demais participantes.
Foi mais uma e experiência espetacular. Na minha opinião a equipe do Pedal da Serra (Petrônio, Josemar, esposas e colaboradores) superou-se. A entrega dos kits foi de acordo com o pactuado, a sinalização estava perfeita, os pontos de apoio estavam em locais estratégicos, os motociclistas estavam sempre disponíveis para atender aos eventuais problemas, a SAMU marcou presença e nos deu segurança, o almoço foi farto (vi pratos que imitavam a serra do Talhado) e delicioso, a música foi de excelente qualidade, a cobertura fotográfica e as filmagens foram eficazes e a comunicação dos organizadores com os participantes foi impecável.
Resta agora esperar o próximo ano e dizer a todos que mesmo no Talhado RAPADURA É DOCE, MAS NÃO É MOLE.
Encontro com João Maia em Acari.
Sorvete de cevada: de acordo com a OMS.
O "Balai Lama".
O pastel é tão grande que é servido numa carcaça de ventilador.
Não precisa de legenda.
Café da manhã.
A saída nas ruas da cidade.
Pedindo pra morrer.
Ponto de apoio de responsa.
Ciclista orando (olhando direitinho você consegue ver a Meca).
Claudia Celi na descida do Talhado.
Na fazenda com Miltinho, familiares e amigos.
Almoço no Clube.
Música ao vivo.
O trajeto.
Perfil altimétrico.