22/03/2016

Rapaduras na Patagônia - parte IV - Bariloche ao Vulcão Osorno (Chile)


Caros Rapaduras:

Dia 11 de março de 2016.

Depois da longa pedalada de ontem o dia foi merecidamente livre. Alguns optaram por fazer rafting em um passeio sugerido pelo hostel. Soube que foi bastante satisfatório e os participantes ficaram bastante impressionados com a organização. Optei por acompanhar o grupo que ficou na cidade, "batendo perna" e descansando para o dia seguinte, o tão esperado cruce nos lagos andinos.
Andamos muito na cidade e constatamos uma diferença muito grande entre os preços cobrados pelos bares/restaurantes e os supermercados. Somente para fazer um comparativo uma garrafa do vinho Postales Del Fin Del Mundo Malbec (750 ml) e uma garrafa da Cerveja Quilmes (970 ml), custaram, respectivamente, nos bares/restaurantes 130 e 80 pesos, ao passo que nos supermercados saíram por 55 e 29 pesos. Os chocolates também possuem uma disparidade de preço grande, mas nada que uma boa peregrinação nas diversas lojas não resolva.
Total pedalado no dia: 0 Km. Total de botellas de vinho e cerveja: perdi a conta.

Dia 12 de março de 2016.

Acordamos de madrugada e tudo ainda estava escuro. Havia uma certa tensão no ar, pois nesse dia iríamos pedalar com hora marcada, pois teríamos que embarcar para realizar as travessias dos lagos, tendo que obedecer aos horários dos barcos (http://www.cruceandino.com/). Saímos logo após às 06h30min pelo asfalto e o frio estava intenso. Pedalamos pela Avenida Exequiel Bustillo, passando por uma região repleta de hotéis, chalés e restaurantes. Em determinado ponto chegamos em uma região Militar e quando passávamos nas proximidades dos lagos o frio aumentava mais ainda. Após 25 Km pedalados em um ritmo muito bom o grupo chegou todo junto ao estacionamento do Porto Pañuelo. Chegamos com tempo de sobra e foi possível utilizar o wi-fi do lugar e fotografar a região. As bicicletas são embarcadas em lugar próprio e os ciclistas seguem para a zona de embarque dos passageiros. Tudo muito organizado e funcional. 
Puerto Pañuelo.

Ainda Pañuelo.

Dentro do barco fomos anunciados como "ciclistas valientes que se cruzaríam los Andes", gerando aplausos dos demais passageiros e uma emoção especial para nós. Conhecemos um casal de argentinos que também fariam o trajeto de bicicleta, sendo que o destino final deles seria diferente do nosso. Aproveitamos o ensejo e entregamos uma bandana do Rapadura Biker para acompanhá-los.
O barco é muito confortável e tem um excelente serviço de bar, rapidamente descoberto pelos Rapaduras. Em determinado ponto soou avassalador o apito do barco e o rapaz do bar nos informou que estávamos passando no túmulo do Perito Moreno e aquela era uma homenagem prestada pelos marinheiros. Rendemos nossas condolências ao Perito e aproveitamos para também homenagear o nosso querido Raimundo Bezerra, tomando um "cálice" de vinho em sua homenagem.
Bikes arrumadas no barco.

Gaivotas.
Muito lindo.


Desembarcamos em Puerto Blest, sempre com a prioridade destinada aos ciclistas, e seguimos por cerca de 3 Km até o Puerto Alegre, local em que passamos pela Aduana Argentina e iniciamos o maior desafio do dia, pedalar até Puerto Peulla, devendo chegar às 16h00min, horário de saída do barco. Aparentemente teríamos tempo de sobra, mas o terreno que teríamos pela frente não era dos mais fáceis: de início uma subida de 3,5 Km e depois uma descida de mais de 20 Km. O problema é que é tudo pedra de seixo e em alguns pontos é complicado manter o equilíbrio. Estávamos na Cordilheira dos Andes e o único barulho que se houve é da água e dos pássaros. Uma paisagem linda, mas infelizmente com pouco tempo para registros fotográficos.
Entre Argentina e o Chile.

Alegria é o nosso nome.

Olha quem achamos.

Em determinado trecho eu descia cautelosamente e de repente escutei um barulho de pedras rolando. Olhei para trás e só tive tempo de ver nossa colega Bal passando igual a um foguete, entoando uma espécie de mantra, mais ou menos assim: "ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus...". O homem lá de cima ouviu as preces e ela chegou intacta.
Uma paradinha na ponte para abastecimento de água. Na descida até o rio uma informação de Nilo chamou atenção: "senti cheiro de mijo de puma". De fato, ao lado de uma samambaia gigante tinha um local molhado. Analisei e percebi que era de um puma macho, da pata branca, donzelo, com aproximadamente 7 anos de idade e cego do olho esquerdo.  
Foi ali que o puma mijou.

Mais adiante encontrei o Mestre Kuka todo lambuzado de areia e com uma maça verde na mão. Soube de uma testemunha ocular que ele desceu a ladeira "virado num tetéu" e ao perceber a plantação de maça, deu um tríplice mortal andino, recolheu o fruto, deu um rolamento (lembrando da época em que fazia judô no Salesiano) e "caiu em pé", fazendo jus a sua fama de frequentador assíduo do "Morre em Pé" da Antônio Basílio.
Cheguei na Aduana Chilena às 16h07min e depois dos trâmites legais (inclusive tendo que comer 3 maças, 18 ameixas e 4 sanduíches) segui direto ao porto, pois o horário do barco já estava estourado. Para nossa sorte o nosso grupo era bastante versátil e dentre as participantes duas delas eram fluentes no espanhol e conseguiram com "argumentos firmes e impactantes" convencer o capitão do barco a aguardar por 15 minutos os demais ciclistas que ainda cavocavam pedras na Cordilheira.
Enfim, às 16h20min adentramos no barco, sob os olhares de reprovação dos demais passageiros, alguns com hora marcada para chegarem do outro lado e seguirem para o aeroporto. Se outrora fomos ovacionados como heróis, agora quase levamos uma surra de ovo podre.
Travessia realizada e desembarcamos em Puerto Petrohue, local bonito e com muita poeira. O plano seria seguir pedalando até o próximo destino, mas a organização mudou os planos, optando por contratar um veículo para nos deixar no próximo ponto de hospedagem, na base do Vulcão Osorno. Embarcamos no ônibus e percebemos que a subida seria muito exaustiva. Uns 12 Km ladeira acima, numa estrada estilo caracol. Já estava escuro quando chegamos ao Refúgio e lá já encontramos uma parte do grupo que tinha seguido no carro de apoio. Agora é hora de relaxar e admirar o lindo visual abaixo de nós.
Total pedalado do dia: aproximadamente 57 Km.
Petrohue
Do alto do Osorno.


Dia 13 de março de 2016.

Assim que olhei para o vulcão Osorno achei familiar e depois de pesquisar foi que percebi a sua semelhança com o Monte Fuji (https://pt.wikipedia.org/wiki/Osorno_(vulc%C3%A3o)). O lugar é muito lindo e o fato de ver as nuvens do alto é mais incrível ainda. Nos hospedamos no El Refugio Teski Club, local aconchegante e com atendimento de primeira, com ênfase para o recepcionista Cristóvão, sempre paciente, sorridente e atencioso.
Adicionar legenda



Após uma boa noite de descanso, tomamos o café da manhã e saímos para explorar a região, seguindo até uma estação de esqui e aproveitando para fazer os respectivos registros fotográficos.
Sem comentários.

Uma parte do grupo foi pedalar e outra ficou descansando. Enquanto estava trocando ideias com Mestre Kuka acerca da influência da altitude no consumo de vinho e a possibilidade de erupção do Osorno naquele dia, eis que surge o Masterchef Lanza com o seu violão. De imediato perguntamos ao garçom se tinha algum instrumento musical disponível, tendo ele ido até a cozinha e voltado com um ralador, um garfo e duas baquetas, instrumentos mais do que suficientes para fazer a percussão. A tarde então seguiu com muita cantoria e com o esvaziamento da adega do lugar.
Acompanhando Mestre Lanza na viola.


A noite tivemos o encerramento oficial do Pedal da Patagônia - Fogo de Conselho - um momento de expressão dos sentimentos, tendo cada um dos participantes a oportunidade de colocar pra fora suas impressões.

Dia 14 de março de 2016.

Acordamos cedo e fomos transportados até Puerto Varas, local em que tomamos um ônibus de linha até Bariloche. No caminho duas paradas nas aduanas do Chile e Argentina e finalmente por volta das 17h00min chegamos ao nosso destino. A noite foi para os últimos preparativos e no dia seguinte iniciamos nosso retorno ao Brasil. Após quase 24 horas de viagem chegamos em Natal às 10 horas do dia 16 de março de 2016.
Como é bom ser recebido por amigos: Valeu Cabelo, Verinha e Júnior.
Valeu. Que venha o próximo.






20/03/2016

Rapaduras na Patagônia - parte III - La Angustura a Bariloche.



Caros Rapaduras:

Dia 10 de março de 2016.


A Vila de La Angustura vai deixar saudades, mas para o amigo Paulo Cabral o lugar tem um significado mais especial ainda. Foi em uma das tiendas do comércio local que ele conseguiu completar um processo de busca interior, encontrando ali aquela que viria a ser sua marca registrada durante o restante da viagem: uma bermuda cor de romã, pela qual pagou cerca de 800 pesos argentinos, ficando assim conhecida como a "bermuda de la gastura".
"La Gastura"

Amanhecemos dispostos e sabedores que teríamos pela frente cerca de 90 Km até San Carlos de Bariloche. A estratégia da organização foi moderar a velocidade do guia, não permitindo que ninguém o ultrapasse, formando assim um bloco mais compacto. Deu certo e esse foi o dia de melhor rendimento e maior coalisão. Fizemos paradas para hidratação e lanche a cada 20 Km, oportunizando sempre um pouco de descanso e relaxamento.
Grupo mais coeso.

O trecho do dia teve uma maior movimentação de carros na estrada, entretanto, contamos com a imprescindível atitude de Márcio Leite, estrategicamente posicionado no pelotão de vanguarda, fazendo uso do seu retrovisor feito com o mesmo material utilizado no telescópio espacial Hubble. O troço tem estabilidade norte-americana, permitindo ao seu usuário detectar a 3 Km de distância a cor, a marca, o ano, o número do chassi e a placa do carro que se aproximava, bem como quantas pessoas vinham dentro do carro e o número do passaporte do motorista. Para quem vinha pedalando atrás como eu bastava olhar pra frente e verificar o braço esquerdo de Márcio e fazer a leitura. Foi batata, ou melhor, foi papa.
E segue o passeio.

Após 40 Km de pedal paramos na estrada ao lado de um dos inúmeros lagos da Reserva Mapuche, ali o Frajola e equipe de apoio já estava preparando o almoço. Aproveitamos para mais um banho estupidamente gelado e uma sessão de alongamentos, oportunidade em que registramos as elasticidades de algumas colegas. 
Preparativos do almoço.

O incansável Samuel.

Reserva Mapuche.

Flexibilidade.

Sereia Patagônica.

Relaxando.

Nesse lago aconteceu algo interessante. Subi antes do grupo e quando estava calçando o tênis encostou um carro perto de mim e desceu um argentino perguntando se a água estava muito fria. Respondi a ele que estava uma delícia, pois tinha tomado banho somente de cueca (aquela do leilão). O hermano não contou conversa, convenceu a mulher dentro do carro e fez carreira para o lago. Não demorou três minutos e voltou resmungando juntamente com a hermana, ao passo que eu somente observava escondido atrás do ônibus.
Depois do almoço tivemos uma rápida sessão de alongamentos, ensaiamos uma musiquinha para nossa chegada em Bariloche e seguimos viagem. Pedalamos mais uns 20 Km  e começamos a perceber uma mudança na paisagem, já assumindo tons desérticos. 
Paisagem mudando.

Paradinha técnica.

Entramos na cidade por volta das 19h00min e o trânsito estava intenso. Pedalamos um pouco em uma ciclovia, mas logo estávamos novamente entre os carros. Seguimos direto para o Centro Cívico e lá nos misturamos com outras pessoas que estavam esperando o por do sol e curtindo uma música produzida por artistas de rua. Fizemos nosso círculo, cantamos "chegamos em Barilô, Barilô", dançamos na praça e seguimos até o hostel.
Chegamos em Barilô.

Mais uma pra lista.

Alojados novamente, no nosso caso mais vez no Carandiru, nos preparamos para um jantar típico patagônico. Na hora marcada seguimos até o restaurante previamente reservado e o resto da noite foi para tomar vinho e comer bem.
Pedalamos hoje aproximadamente 90 Km.
Jantar típico.

Trajeto.












18/03/2016

Rapaduras na Patagônia - parte II - Lago Hermoso, Vila La Angustura e Parque Arrayanes.

Caros Rapaduras:

Dia 08 de março de 2016


Acordamos com o canto dos pássaros e conforme a programação dormimos um pouco mais, pois a previsão de saída era somente 11h00min. O plano era continuar na Ruta Nacional 40, seguindo pela famosa Rota dos Sete Lagos. Observei que o número de lagos vai muito além de sete, entretanto, os considerados como integrantes da Rota são: Lácar, Villarino, Machónico, Falkner, Escondido, Espejo Grande e Correntoso. Cada um é mais bonito que o outro, tornando assim o pedal pelo asfalto menos enfadonho.
Logo na saída do Hermoso uma foto para homenagear o Dia Internacional da Mulher. Mais adiante, aproveitando o mirante fizemos mais uma homenagem às nossas amazonas.
Viva o Dia Internacional da Mulher.

Lindo visual.

Pedalamos por aproximados 50 Km com muitas descidas intensas e algumas paradas para fotos nos diversos mirantes existentes no trajeto, todos bem sinalizados e via de regra com pontos para coleta de água nas proximidades. No nosso caso a equipe de apoio sempre estava presente com frutas, alguma comida salgada (biscoito ou pão) e água. Chegamos finalmente ao Lago Correntoso e ali o ônibus Frajola já estava parado, nos preparativos do almoço. Aproveitamos o tempo vago para um banho gelado no lago, o que se revelou uma experiência revigorante. Almoçamos, ouvimos orientações acerca da "subida" que nos esperava e seguimos o caminho.
Laíza e Marília: sempre no apoio.

Água gelada direto da fonte.

O Frajola.

Beto Tifuca.
Gelada!!!

Deixamos o Lago Correntoso por um pequeno trecho de terra e logo alcançamos o asfalto. A tal da "subida" foi mostrando sua face e logo sentimos saudades da ladeira de Tabatinga e da Serra do Doutor. Quanto mais você subia, mais ladeira aparecia e para nossa sorte o acostamento era bom e os carros respeitavam a distância regulamentar de 1,5 m.
Quando finalmente a ladeira foi vencida o grupo já estava todo retalhado, o que é justificável pelo nível de stress gerado naquele momento. O fato é que não foi possível tirar uma foto de todos no mirador que antecede a Vila de La Angustura, mas ficaremos com esse débito em aberto.
Chegando.

Quanto mais nos aproximávamos da Vila, mais bonito ficava o visual, especialmente pela casas de campo e chalés fincados nas montanhas, sem falar do esplendor do verde.
Passamos na ponte do rio Correntoso, considerado o menor do mundo, encontramos um paredão indicando que estávamos chegando ao "Jardim da Patagônia" e logo em seguida adentramos em uma ciclovia compartilhada com pedestres, permitindo assim o acesso mais tranquilo ao centro da cidade, pois o trânsito estava intenso.
Jardin de Patagônia

Terminada a ciclovia já encontramos a placa sinalizando o acesso ao Hostel La Angustura (http://www.hostellaangostura.com.ar/es/), local bastante simpático. Nossas expectativas foram confirmadas na pessoa da recepcionista do hostel, bastante solícita e paciente com o grupo de ciclistas famintos de comida e conforto. Nos alojamos e tivemos a notícia de um problema técnico no Frajola (ausência de gasolina com alta octanagem), de forma que nosso jantar terminou em pizza e somente mais tarde é que tivemos acesso às bagagens.
Hostel La Angustura.

Seguindo os ensinamentos do Mestre Kuka, cujas obras foram deixadas em cada um dos 7 lagos, resolvemos tomar um vinhozinho, afinal de contas no outro dia teríamos que pedalar. Aproveitamos o ensejo para conhecer um pouco mais o nosso guia Pablo, tendo este revelado o seu sonho de dedicar 15 anos para dar uma volta pelo mundo de bicicleta. Uma parte do grupo foi dormir e outra foi conhecer a noite de La Angustura.
Pedalamos 74 Km.

Dia 09 de março de 2016

Esse dia foi destinado ao descanso, já que no dia seguinte teríamos um longo trecho até Bariloche. A organização, entretanto, sugeriu um pedal alternativo para os interessados; conhecer o Parque Nacional Los Arrayanes (https://es.wikipedia.org/wiki/Parque_nacional_Los_Arrayanes), sendo informado de uma escadaria com quatrocentos degraus antes do início da trilha, implicando em cada um levar sua bicicleta nas costas. Após analisados os prós e os contras um grupo de 09 ciclistas se formou e eu estava entre eles, o que se revelou uma decisão muito acertada, pois parodiando o mestre escapista, alquimista e especialista em massagens relaxantes pescoçais, Mister Carlson, foi seguramente uma das trilhas mais bonitas que já fiz na vida. 
De fato a escada existe, entretanto, segundo minhas contas foram 158 degraus de madeira, com a bicicleta pendurada no ombro. Vale cada centímetro carregado, pois a trilha tem 24 Km (12 de ida e 12 de volta), toda sinalizada e dentro de uma floresta intensa, com um tipo de vegetação que somente tem similar na China. O lugar é mágico, com um silêncio magnífico e uma atmosfera que não lhe permite cansar. Durante todo o trajeto nos deparamos com cilistas e pessoas fazendo a pé o trajeto, tudo funcionando com harmonia e respeito.
A tal da escadaria.
Ela de novo.

Um fato interessante aconteceu na trilha: logo no início um cachorro se aproximou do grupo e ganhou a simpatia de alguém, recebendo o apelido de Cebola (não me perguntem por qual motivo, pois quando cheguei a cena já estava em curso), passando a nos acompanhar. Em determinado trecho o cachorro desapareceu e de repente escutamos no sentido contrário uns latidos e um barulho de cavalgada. Admirados observamos Cebola afastando os cavalos selvagens patagônicos do nosso caminho, como se tivesse a nos proteger. Foi tudo muito rápido, não permitindo sequer um registro fotográfico.
Valeu a levantada.
Obrigado meu Deus.

A trilha termina em um pequeno porto no Lago Nahuel Huapi, que de tão grande chega a formar ondas. Ficamos ali parados observando o azul do lago e lá dentro tenho certeza que cada um gritava como eu: "obrigado meu Deus".
Foram 30 Km pedalados.
O trajeto de Hermoso a La Angustura.
Trajeto Parque Los Arrayanes.


17/03/2016

Rapaduras na Patagônia - parte I - Vila de San Martin ao Lago Hermoso.

Caros Rapaduras:

Dia 05 de março de 2016
              
Chegamos ao aeroporto de Bariloche e rapidamente conseguimos uma van para nos conduzir até o hostel (http://www.marcopoloinnbariloche.com/hostel-bariloche-english/). De imediato já percebemos que os hermanos não gostam muito de conversa, não se importando em desagradar os brasileiros que estão indo ali para introduzirem dinheiro em seu País quebrado. Refiro-me ao motorista da van, tão sutil como um rinoceronte, ao se dirigir a um colega que pretendia auxiliar com a nossa vasta bagagem. Estávamos tão eufóricos com a chegada que deixamos de lado a indelicadeza e voltamos nosso olhar para a paisagem.
No hostel alguns colegas já estavam hospedados e mais uma vez sentimos a "simpatia" argentina, desta feita na pessoa de um recepcionista do lugar, cuja grande característica é ser extremamente chato e pouco acolhedor, respondendo com evasivas e fazendo de tudo para dificultar nossas vidas. Superamos mais esse e finalmente conseguimos adentrar o quarto para seis, rapidamente apelidado de Carandiru.
Não demorou e já ganhamos as ruas de Bariloche. Rápido passeio no centro e encontramos um bar/restaurante muito simpático, vindo a ser nosso "point" (Morfys Bariloche) nos dias que passamos na cidade. Para ser justo é necessário dizer que fomos muito bem atendidos e descobrimos depois que o garçom argentino já tinha morado no Brasil. Não precisa explicar mais nada.
Voltamos ao Carandiru e dormimos o sono dos justos.
Rapaduras em Bariloche: chiques não, a bexiga!.
Almoço no Jauja.
 
Claudia Celi no Centro de Bariloche em sua foto tradicional.

 
Dia de visita no "Carandiru".



 
 
Dia 06 de março de 2016
 
Acordamos no horário previsto pois o carcereiro da recepção do hostel fez tantas recomendações sobre o horário do "desayuno" que não poderíamos cogitar de atrasar nem um minuto, sob pena dele chamar a Gendarmeria Nacional Argentina. Para quem estava com muita fome o café foi uma decepção, limitando-se a um pão, café ralo, geleia e sucrilhos. Terminamos com mais fome ainda e as meninas ainda tiveram um "bônus": lavar os pratos, como toda hosteria que se preza.
Nos reunimos com os demais colegas e fomos andar por Bariloche, passando por uma feirinha de artesanato e admirando as pessoas sentadas nos gramados olhando o enorme lago Nehuel Huapi, nome que nos acompanharia durante toda aventura. O almoço foi para homenagear nossa amiga Marice Lemos, cuja maior recomendação foi experimentar a truta. O local escolhido foi o restaurante Jauja (http://www.restaurantejauja.com.ar/pt).
No final da tarde embarcamos em uma van com destino ao nosso primeiro local de acampamento, situado a menos de 3 Km da Vila de San Martin de Los Andes. A viagem foi muita tranquila e foi possível sentir as expectativas de cada um. Ah, o motorista era argentino e bastante simpático.
Chegamos ao local previsto e nosso acampamento já estava montado. Conhecemos toda equipe do staff e foi feita uma roda de apresentação. O frio da montanha começou a mostrar sua face e tivemos no jantar uma sopa para nos aquecer. Por volta das vinte horas o sol se escondeu e enquanto organizávamos nossas coisas nas barracas o pessoal do staff cuidava de montar nossas bicicletas e dos preparativos para o dia seguinte.
Ainda naquela noite fomos juntamente com nosso guia argentino Pablo Andres (gente muito boa) conhecer a Vila de San Martin e para nossa sorte era um domingo, pois nos deparamos com muitas lojas de bicicletas e acessórios, ficando babando somente pelas vitrines. Encostamos em um barzinho e fomos tomar uma garrafas de vinho patagônico, pois segundo Kuka: "ninguém vai beber pois vamos pedalar amanhã, tomaremos só um vinhozinho".
Acordei às três da manhã para uma mijada patagônica e ao caminhar os 52 metros que me afastavam do banheiro senti uma lufada de vento entrando por dentro da roupa que por muito pouco não me fez desistir. Cheguei ao destino e tirei do bolso do casaco o alicate Tramontina, de utilidade indiscutível.
Na van: Bariloche-San Martin
Acampamento do primeiro dia.
Mais do acampamento.
 
 
Dia 07 de março de 2016
 
Na hora marcada o café da manhã foi servido e algumas bicicletas ainda necessitavam de ajustes. Após um atraso justificado, tivemos uma sessão de alongamentos com Beto Tifuca, algumas explicações sobre o trajeto (Nilo e Pablo) e finalmente começamos o pedal. Deixamos o pequeno trecho de terra e já iniciamos uma subida pelo asfalto na famosa Ruta Nacional 40, estrada turística que segue paralela à Cordilheira dos Andes (https://es.wikipedia.org/wiki/Ruta_Nacional_40_(Argentina) e que seria nossa companhia durante nossa estada na Patagônia. Logo na primeira subida tivemos o primeiro problema com uma bicicleta, mas com um pouco de paciência tudo foi resolvido e voltamos ao pedal. Percorremos aproximadamente 37 Km, em uma região repleta de áreas de camping e paisagens incrivelmente verdes. Ainda com o sol chegamos ao Lago Hermoso, local escolhido para nosso segundo acampamento. Aqui a estrutura já foi bem melhor do que o camping anterior, principalmente a parte de banheiro, além do fato de existir uma administração com disponibilidade de wi-fi e um serviço de bar/lanchonete.
A noite chegou e para os que ainda tinham alguma energia uma surpresa: uma fogueira, violão, vinho, cerveja e os cortes de carnes argentinas (matambre, vacio, asado e falda), além da tradicional linguiça (chorizo). O céu especialmente estrelado foi testemunha das músicas dedilhadas por seu Lanza e Nilo, com a percussão de Beto Tifuca e as vozes dos ciclistas patagônicos. O calor da fogueira e o clima de alegria existente transformou essa em uma das melhores noites da viagem.
O fogo foi diminuindo, as pessoas se recolhendo aos poucos (alguns necessitaram do apoio de Samuel para encontrarem suas barracas) e logo todos estavam em suas barracas, sendo o som do violão substituído pelos roncos das panças e as flatulências patagônicas.
Preparativos para saída do pedal.
Charmosa no Hermoso.
Foi assim que amanheceu...
Trajeto do dia.

Trajeto do dia.

Continua...