16/01/2014

EXPEDIÇÃO LITORAL NORTE DO RN – 2014



O título original não era esse, mas por sugestão de um dos integrantes (Diego Borges) resolvi acatar, pois a definição de expedição obtida no dicionário do Kindle tem tudo a ver. Senão, vejamos: “Enviamento de tropas a determinado ponto e com determinado fim. Viagem marítima ou terrestre a determinada região com um fim político, científico etc.”. Nos enquadramos no etc.
O dia escolhido foi 02 de janeiro de 2014, logo ao iniciar o ano, pegando muita gente ainda com ressaca do réveillon. Assumo tratar-se de uma data um tanto pouco complicada, mas como não obtive férias no mês de janeiro, tive que fazer uma programação com término no dia 06, pois no dia seguinte já voltei ao trabalho.
A expectativa inicial era um grupo entre 25 e 30 pessoas, pois algo além disso poderia complicar, principalmente no aspecto hospedagem e no próprio desenvolvimento do grupo.
A experiência de deixar cada um responsável por suas reservas revelou-se mais uma vez positiva, pois isso faz com que cada um sinta um pouco da responsabilidade de organizar um troço desse. Também serviu de aprendizado não ter estabelecido uma regra quanto às desistências, pois de certa forma implica na organização, principalmente no quesito carro de apoio, travessias de barco e transporte de retorno. Na próxima vez vamos estabelecer o seguinte: após a efetiva confirmação a desistência implicará na perda dos valores pagos, excetuado se o desistente apresentar um substituto que seja aceito pelo grupo.
A composição final foi a seguinte: Abeane, Álvaro, Areli, Benilton, Claudia Celi. Diego Borges, Erimar, Genival, Helena, Josias, Juliana Cantero, Luiz Henrique, Marcão, Milena, Neide, Othon, Raira e Zé (pedalando). Alex Alcoforado, Naldo e Raimundão (no primeiro dia até Pitangui). Alexandre Pinto e Guilherme Lima (carro de apoio). Ariê, Soraia Lima e Leozinho (acompanhantes). Todos muito empenhados e bem preparados, sem que tivéssemos qualquer problema digno de registro.
Esse ano tivemos a honra de contar com colegas ciclistas de São Paulo (Areli, Zé, Marcão e Luiz Henrique), honrado-nos com suas presenças e sentindo na pele o calor humano do nordestino e a quentura da peste do nosso litoral.
Cumprimos todos os trajetos programados dentro do cronograma e não tivemos nenhum pneu furado. Pequenos problemas mecânicos nas bicicletas de Erimar e Josias foram prontamente resolvidos, o primeiro na base da porrada e o segundo utilizando protetor solar para lubrificar.
Enfim, uma palavra resume a nossa expedição: perfeita.

1º DIA (02/01/14): Natal-Touros (97,9 Km)

Às 06h30min parte do grupo estava reunido na rótula da Roberto Freire, início da Via Costeira. Uma olhada para trás e o Morro do Careca sorriu para nós como se autorizando nossa saída. Descemos pela “ciclovia” e a brisa do mar entrou nas nossas ventas, tal qual perfume de fulô. Olhei pelo retrovisor, ainda meio embaçado pela maresia, vi sem nenhuma dúvida os paulistas encantados com nossas belezas naturais. Lembrei daquela frase: “eu moro onde você tira férias”.
Chegamos no pé da Ladeira do Sol e os demais integrantes do grupo já nos aguardava e para nossa surpresa estavam presentes quatro autarquias do Rapadura Biker – Alex Alcoforado (Lindão), Naldo (Ridículo), Raímundão (O Véi) e Uilamy (Uila). Os três primeiros nos acompanharam até Pitangui, enquanto o último foi servindo de batedor até a Ponte de Todos. São esses pequenos grandiosos gestos que me incentivam a continuar pedalando com essa “mundiça querida”. Fizemos a foto no relógio e fomos embora.
Vencemos a Ponte de Todos sem problema, atravessamos a Redinha, rapidinho chegamos em Santa Rita e de repente já estávamos nas Dunas de Genipabu e conforme programado encontramos os dromedários indo para o expediente diário. Fizemos os retratos e agradecemos aos guias dos bichos, tendo um deles dito a Raimundão com orgulho que a sua profissão era “coletor de bosta de dromedário”.
O grupo estava muito coeso e uma prova disso foi que pela primeira vez vi todo mundo atravessar Barra do Rio utilizando somente uma balsa. Rapidinho chegamos em Pitangui e a equipe de Dona Biluca já nos aguardava. Aqui faço um registro imprescindível: nesse dia Dona Biluca estava acometida de um mal estar, entretanto, abriu o restaurante especialmente para nós e seus filhos nos atenderam dentro do padrão Fifa Master Plus Ultra Combo Mega Forever.
Nos despedimos dos colegas ficantes, abastecemos no carro de apoio já presente e descemos para a areia da praia e a maré estava altamente propícia. Andamos bem e em pouco tempo alcançamos Muriú, sendo recepcionados pelo carro de apoio e acompanhantes. Chamou especial atenção o avanço do mar, pois paramos no exato lugar quando fizemos o pedal do litoral em 2012 e o mar já tinha levado a mureta. Lembrei então da frase do filósofo contemporâneo oriundo de Cachoeira dos Guedes, Lorde Bené de Lima Souza: “contra maré, soldado de puliça e chibata, não adianta lutar contra”.
Fomo embora e nossa próxima parada foi Barra de Maxaranguape. A travessia do rio foi tranquila e fizemos uma parada estratégica para limpar as bicicletas e as gargantas. A partir desse ponto seguimos pelo asfalto, mas sempre tendo o mar ao nosso lado.
Chegamos em Caraúbas e pela primeira vez na vida tive muita saudade de Evandro Bebê. Quando passei em frente ao “Le petit bristot” uma lágrima de aproximadamente 0,5 milímetros escorreu pelo meu olho direito, atravessando o buraquinho do zíper da camisa e depositando-se na parte superior do cadarço da minha sapatilha do pé esquerdo. Foi foda!!!! Para os que não entenderam, explico: a residência praiana de Evandro e Celita é parada obrigatória dos Rapaduras, sendo certo que ali sempre tem uma cerveja gelada e um inacreditável mergulho na piscina de corais.
O próximo trecho foi de barro vermelho e sol escaldante. Quando passamos na portaria do Ma-noa Park a vontade foi deixar a bicicleta e sair correndo para o parque aquático. Elegemos como ponto de parada um “puxadinho” utilizado pelos “guias” de turismo. Ali fizemos um lanche rápido e por muito pouco não derrubamos a barraca.
A próxima parada foi em Pititinga e nesse momento a temperatura estava na escala DFCP, ou seja, “de foder o cu de peixinho”. Para completar o nosso apoio pintistíco ainda nos mandou uma singela mensagem via radio: “Cadê vocês??? Eu estou aqui na beira da praia tomando uma cerveja gelada e esperando um peixe”. Contei até 5.969 e entoei o mantra que aprendi na última viagem que fiz ao deserto de Chupaessa: “fodeu, fodeu, fodeu....”. Energizado e sob efeito do mantra afrodisíaco, solicitei ao Cabo de Dia (ou será Cabo de todos os dias?), Erimar Fastioso, que anunciasse nossa saída com três “chiringadas” de apito, sinal tradicional de saída do Rapadura Biker.
Novamente a estrada de barro vermelho nos aguardava e pra completar o trajeto tinha mais costela do que carneiro magro vendido na feira de Remígio-PB. Pra que se tenha ideia da tremedeira, suficiente dizer que caiu uma luva da mão de Neide do Gás e ela não percebeu.
Parecendo pacientes de Hospital de Mal de Parkinson chegamos na ponte do Rio Punaú e nossa expectativa foi frustrada: o bar que vende Gatorade, Cachorrorade e Mocórade estava fechado, pois depois da condenação dos mensaleiros o dono recebeu uma ordem pra somente abrir nos dias de domingo. A nossa sorte foi que não proibiram o banho, pois a água estava bem geladinha. A mesma sorte não teve um grupo de banhistas (uns três casais) que estavam ali para realizar uma “matança”, mas ficaram envergonhados com nossas presenças.
Com a cabeça fria e o peso na consciência de ter “atrapalhado a folga” dos banhistas, seguimos nosso trajeto, passando por Rio do Fogo, Carnaubinha e finalmente Touros.
Dentro do horário programado chegamos na casa de Gracinha em Touros-RN e por mais que esteja acostumado com a situação, a cada dia me surpreendo com a capacidade que ela tem de ser tão atenciosa. Qualquer outra pessoa, pois mais desprendida que seja, ao deparar-se com um grupo enorme de ciclistas cansados (fisicamente e psicologicamente) teria como reação natural ficar aborrecida. Com Gracinha não. O sorriso que era grande transformou-se em enorme. Abriu as portas de sua casa como se ali estivesse o seu irmão Júnior Verona. É isso também que me faz insistir em pedalar com os Rapaduras.
A noite chegou e fizemos um passeio pela cidade, com direito inclusive a visitação ao parque de diversões. Foi massa. Voltamos a ser adultos, pois percebemos que tínhamos que voltar cedo para dormir e pedalar no outro dia.
Geralmente termino o relato dizendo que a noite chegou e dormimos feito crianças. Nesse caso, o jargão não se aplica. Explico: calhou que um grupo de AS (almas sebosas) estava geograficamente situado ao lado da casa em que nos hospedamos. Até aí tudo bem, pois até as AS tem o seu lugar no céu, desde que estejam com o voucher. Ocorre, entretanto, que essas AS eram top de linha, a fina flor do suco de jambú, catinga de furico em pó, viagra de jumento e coisa e tal. Os caras ligaram um paredão no volume Gangão e arrocharam a noite toda. Quando você pensava que tinha acabado, tudo ainda estava no lugar, tal e qual mancha de batom em cueca. O fato é que o caso terminou com a presença da “puliça”, a quem cabe resolver problemas desse naipe.
O dia amanheceu e o assunto não poderia ser outro. Tomamos café, nos despedimos de Gracinha (ainda de pijama) e seguimos viagem agradecidos e preocupados se aqueles idiotas do paredão não ficarão com raiva dela, pois nós estávamos apenas de passagem. Entreguei a quem confio, o velho Deus.
















































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