29/06/2011

Pedalando na Natal de antigamente

Caros seguidores:
Navegando nos mares profundos da Net encontrei um excelente artigo do Professor Geraldo Batista (lembram dele na COMPERVE) relatando seus amores pela "magrela". Compartilho com vocês: http://www.riototal.com.br/coojornal/geraldobatista007.htm

Geraldo Batista  

Minhas bicicletas

Peço permissão aos meus pacientes leitores para falar de algumas lembranças de antigamente que ficaram impregnadas na alma desse menino grande como se minha infância tivesse durado até hoje. Foi assim a história de minhas bicicletas.
Quando menino, no meu pequeno Acari, vivia dizendo a Dona Amélia, minha mãe, que um dia ainda compraria uma bicicleta.

- “Menino, deixe de sonhar, bicicleta é para menino filho de gente rica.”

Quando vim morar em Natal, continuei alimentando aquele sonho. Via com tristeza nos olhos os rapazes de minha idade passeando de bicicleta, fazendo bonito diante das meninas. Aquilo me dava uma inveja dos diabos. Comecei, então, a trocar o sonho por um projeto. Parecia até coisa da SUDENE, a rainha dos projetos e das ruínas.

Fui à luta trabalhando duro na tipografia do Abrigo Melo Matos. Fazia extra nos sábados, nos feriados e à noite quando entrava de férias do colégio. No carnaval de 1956, trabalhei todos os dias e completei o dinheiro para comprar uma bicicleta de segunda mão de um rapaz que havia comprado uma motocicleta, como se chamava moto naquele tempo. Era uma bicicleta sueca. Tinha até os raios de inox e freio contra-pedal. Um luxo. Parecia até que tinha conseguido uma nova namorada, coisa muito rara para um jovem que morava no Abrigo Melo Matos. Quando eu dizia a uma garota que morava no Abrigo, invariavelmente levava um fora. Mesmo assim, nunca neguei o meu endereço, pois sabia que a mentira tem pernas curtas.

Como sempre tive um bom preparo físico, desafiava os velhos ônibus que subiam resfolegando as ladeiras da cidade. Nos feriados, saía de Petrópolis com meu colega Paulo Gurgel e ia chupar manga no sítio de Dona Adélia, na atual Rua Nascimento de Castro, que nem nome tinha na época, pois a cidade terminava na Avenida 15. O sítio ficava lá no fim do mundo, onde hoje funciona uma universidade particular.

Usei a velha bicicleta até vendê-la por quase nada e comprar uma Lambreta. Sou da geração que cantava “Hoje tenho uma lambreta para ver o meu amor.” Como os leitores podem perceber, sou do tempo em que havia músicas de carnaval, atualmente, mortas e sepultadas pela famigerada “Axé music”.

Depois entrei na moda de correr pelas ruas. Fundei, juntamente com alguns malucos, a Associação dos Corredores de Rua de Natal.

Em outubro de 1980, parei de correr. Comprei uma Caloi e passei a pedalar de madrugada. Um verdadeiro vício. Um dia, fiz uma extravagância e comprei uma Cadex, o topo de linha na época. Durante o veraneio de 2000, um garoto levou minha bicicleta. Batei-me uma tristeza como se tivesse perdido uma namorada. Devido a alto do dólar, contentei-me com outra mais modesta.

Em junho de 2005, seguindo o conselho do meu urologista, aposentei a bicicleta e passei a caminhar e a correr com a “mundiça” do Bosque dos Namorados. Mas fiquem certos de que guardo pela minha bicicleta uma certa roedeira de quem perdeu um grande amor. Por isso, ela continua na família para eu poder pelo menos olhar para ela de vez em quando.

E essa “mundiça”?. Isso é outra história. Fica para um futuro encontro com os leitores.




(23 de dezembro/2006)
CooJornal no 508

Geraldo Batista
bacharel e licenciado em História, professor e escritor
Natal, RN
geraldo@concursos-rn.com.br
geraldo@talento-rn.com.br
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