15/05/2011

Mais um ciclista atropelado e morto

Ontem cheguei em casa disposto a blogar sobre a minha experiência na Ação Global, mas no caminho peguei o Jornal de Hoje e me deparei com a triste notícia: "CICLISTA É ATROPELADO NA BR -101 E MOTORISTA DO FIESTA TENTA FUGIR" (edição impressa dos dias 14 e 15 de maio, p.6).
Cheguei em casa e parti para buscar informações na Internet, encontrando na comunidade da Bicicletada no Orkut um tópico específico sobre Histórico de Acidentes com Ciclistas, constando um relato sobre o ocorrido, inclusive registrando que o local foi "marcado" como mais um ponto de agressão aos ciclistas.
Continuei procurando informações e mas tarde encontrei na Tribuna do Norte outra matéria (http://tribunadonorte.com.br/noticia/ciclista-morre-atropelado/181401) e no Diário de Natal também encontrei o fato noticiado (www.dnonline.com.br/ver_noticia/70809/).
Analisando as notícias encontrei algumas disparidades, as quais vou pontuar: JORNAL DE HOJE: "Possivelmente sob efeito de bebida alcoólica, o motorista do Fiesta se negou a realizar o teste do bafômetro e foi conduzido à Delegacia de Plantão Zona Sul". TRIBUNA DO NORTE:  "só às 9h30 a faixa direita da pista de rolamento, no sentido Parnamirim-Natal foi totalmente liberada para o tráfego após a conclusão da perícia pelo Instituto Técnico e Científico de Polícia (Itep), para onde o condutor do automóvel também foi levado para realizar exame etílico, a fim de saber se ele ingeriu bebida alcoólica". JORNAL DE HOJE: "Populares contaram que a vítima estava pedalando normalmente pelo acostamento, quando o carro saiu da pista". TRIBUNA DO NORTE:  Segundo comentários, era de que o  ciclista havia atravessado a pista, tendo sido colhido pelo carro já no acostamento em frente  um canteiro da empresa Marcosa. O trecho onde ocorreu o acidente tem acessos das vias marginais à rodovia BR 101. No trecho onde ocorreu o acidente é comum o tráfego de ciclistas usando a estreita faixa de acostamento". DN ONLINE:" O motorista do veículo, que não teve o nome revelado, estava visivelmente embriagado e foi levado para a Delegacia de Plantão da Zona Sul. Ele deve responder por homicídio doloso, com intenção, devido ao fato de estar dirigindo alcoolizado".
Perceberam? Colocaram em dúvida o estado etílico do motorista, o que até compreendo, pois possivelmente os repórteres não tiveram acesso ao resultado do teste do etilômetro, nem tampouco ao exame clínico a que foi provavelmente submetido o autor do crime. O mais grave, no entanto, é que existe uma disparidade enorme na abordagem quanto a conduta do ciclista, tendo um jornal estampado que "estava pedalando normalmente" e o outro dito que "havia atravessado a pista".
Isso tudo me remete a uma triste conclusão, fruto da experiência profissional de mais de vinte anos: se não houver um acompanhamento sistemático de todos esses "atropelamentos" de ciclistas as vítimas fatais serão meros números estatísticos e em muitos casos a situação vai ser invertida, de forma que as vítimas passarão a condição de algozes.
O que deve ser feito então? Acho que a primeira providência é essa adotada pela Bicicletada Natal, cujo tópico deve ser replicado por todas as comunidades e blogs de ciclistas. Manter ativo o HISTÓRICO DE ACIDENTES COM CICLISTAS, alimentando um banco de dados informal a partir das notícias publicadas na imprensa.
Além disso, creio que é papel da ACIRN, e vou levar tal sugestão de imediato à Diretoria, que seja oficiado à DEAV - Delegacia de Acidentes de Veículos de Natal, às Delegacias de Polícia de Parnamirim, Macaiba, São Gonçalo do Amarante, Ceará-Mirim e São José de Mipibu (Grande Natal) com o objetivo de obter os números de inquéritos policiais instaurados para apurar crimes de homicídios no trânsito em que ciclistas foram vitimados. Tal informação será de suma importância para que tenhamos registros dos fatos e possamos utilizar os dados em nossas postulações junto ao poder público.
Ademais, é importante que tenhamos a identificação das vítimas, estabelecendo qual o perfil (se ciclista trabalhador, de lazer, eventual ou se também estava sob efeito de bebida alcoólica) para que possamos desenvolver nossas políticas com informações mais plausíveis.
Bem mais difícil, mas não vejo como impossível, seria um apoio aos familiares das vítimas, especialmente prestando orientações de como acionar a justiça para uma indenização, como acompanhar a ação penal, como buscar o seguro, sobre as possíveis implicações trabalhistas decorrentes do "acidente", e onde buscar assistência social e psicológica.
Que a morte do ciclista até agora anônimo seja um marco na luta a que nos dispomos e que sirva para acender em cada um de nós, ciclista ou não, a chama da luta por melhores dias e por um trânsito sem violência.
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